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Contrabando espalha algodão transgênico nas lavouras
01/11/2004
Fonte: Planeta Rural
Sementes de algodão transgênico trazidas por contrabando ao Brasil contaminaram as lavouras da variedade convencional, e hoje apenas uma parte mínina das sementes existentes no país está totalmente livre destas de OGMs (organismos geneticamente modificados). A informação é da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (Abrasem), que agora tenta junto ao governo que seja implantado um nível de tolerância para a presença de OGMs em lotes de sementes convencionais, para que elas continuem sendo classificadas como tal. "Os produtores nacionais de algodão atravessam um momento de dificuldade... Temos um produto dentro da lei, fiscalizado e certificado pelo ministério... que agora passou a ser considerado impróprio porque apresenta traços (de transgênicos)", disse Cláudio Manuel da Silva, diretor da área de algodão da Abrasem. A disseminação do algodão geneticamente modificado (GM) --cujo plantio é proibido no Brasil-- ocorreu rapidamente. Hoje, cinco anos após o início da entrada ilegal das sementes transgências, mais da metade da produção de algodão do Centro-Oeste e da Bahia já apresenta traços destas variedades, segundo estimativa da Abrasem. A região, dominada por grandes produtores, colheu na safra passada mais de 1 milhão de toneladas de algodão em pluma -- o equivalente a 78 por cento da produção brasileira. Segundo a Abrasem, algumas áreas de multiplicação das sementes transgênicas clandestinas acabaram contaminando áreas destinadas a sementes convencionais. "O fazendeiro hoje é um empreendedor, viaja o mundo inteiro e traz, aos poucos, sementes na mala. Essa semente rapidamente se esparramou, nos últimos anos", afirmou uma fonte do setor. Por suas características naturais, a propagação do algodão transgênico é mais fácil, por exemplo, que a da soja. A contaminação se dá por polinização cruzada, com insetos, e pela utilização das mesmas máquinas agrícolas em lavouras normais e transgênicas. Além das áreas de plantio convencional comercial, podem ser afetadas espécies silvestres nativas. Tolerância Agora, o setor trabalha junto à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para que sejam acelerados os estudos de impacto ambiental para o algodão, ainda não realizados no Brasil. A lei de biossegurança atualmente em vigor (que pode ser substituída pela nova, que tramita no Congresso) submete a liberação de qualquer organismo GM à avaliação prévia da CTNBio e autorização dos demais órgãos competentes. O setor também pede ao governo que estabeleça um nível de tolerância de até 1 por cento para a presença de sementes transgênicas dentro de um lote considerado convencional. Com esse limite --uma semente GM para cada 100 não-transgênicas, estipulado com base em leis existentes em outros países como os EUA, segundo a Abrasem--, o setor acredita que a produção nacional poderia ser comercializada sem problemas. Sem ele, não haveria semente suficiente para o plantio da safra 2004/05, que já começou em alguns Estados. "É como a água. Ingerimos também mercúrio, alumínio e outros elementos misturados, mas nem por isso a água deixa de ser potável, porque tudo está dentro do limite", exemplificou Silva. Segundo os produtores de sementes, o governo foi avisado da situação ainda no primeiro semestre do ano. A despeito disso, o Ministério da Agricultura anunciou em agosto que a fiscalização de sementes seria reforçada e que seria seguida à risca a tolerância zero. Em setembro, três produtores foram autuados no Mato Grosso pelo plantio ilegal de algodão GM, além de duas empresas produtoras de sementes, pelo comércio de produto irregular. Segundo a Abrasem, são cinco as produtoras de sementes de algodão no Brasil --entre elas, as multinacionais Bayer e Syngenta. A produção é de 500 mil sacas (20 kg) por ano, o suficiente para atender a 80 por cento da demanda nacional.
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