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Ilhas da tecnologia

07/11/2005

Fonte: Revista Época - SP

Cátia Luz


Um dos mais famosos cartões-postais do Rio de Janeiro virou nome de rocha em Marte. Em homenagem ao Brasil, os pesquisadores da Nasa batizaram de Pão de Açúcar uma das pedras identificadas no solo do planeta. A sugestão, aceita rapidamente pelo grupo, foi do físico Paulo Antônio de Souza Jr., analista de meio ambiente da Vale do Rio Doce (CVRD) e o único brasileiro a fazer parte da missão que procura evidências da presença de água em Marte. O físico acabou "emprestado" à agência espacial americana graças a uma tecnologia aprimorada pela Vale. Trata-se do espectrômetro, um equipamento capaz de analisar a composição de minerais ferrosos. O equipamento já existia, mas era do tamanho de uma máquina de xerox, exigia uma grande quantidade de amostra e levava dias para concluir uma análise. Depois de um trabalho conjunto da Vale com a Universidade de Mainz, na Alemanha, o aparelho ganhou as dimensões de um mouse e passou a fazer análises em apenas três ou quatro minutos, com quantidades cada vez menores de material. "Saímos na frente e viramos referência mundial", afirma Souza. Essa história parece incompatível com um país que nos últimos anos, em função dos baixos investimentos em pesquisa e tecnologia, só vem perdendo terreno na lista das economias mais competitivas do mundo. Dono da 15 s maior economia do planeta, o Brasil perdeu oito posições e caiu para o 65°- lugar no ranking global de competitividade, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. Mas, apesar de a criatividade apenas engatinhar no país, um grupo de empresas conseguiu se transformarem ilhas de excelência e brigar às vezes com vantagem no mercado global. Em geral, as empresas inovadoras estão em áreas em que o Brasil já se destaca, como mineração, agricultura e petróleo. A Embrapa e a Petrobrás são alguns dos exemplos mais conhecidos. Mas, com a ajuda de universidades e institutos, essas exceções agora estão se espalhando por setores menos explorados. "A parceria entre empresas e universidade, ainda rara por aqui, está acabando com um dos nossos maiores problemas em pesquisa: o de gerar conhecimento, mas não conseguir ganhar dinheiro com ele", afirma Rafael Tello, do Núcleo Serasa de Inovação da Fundação Dom Cabral. O Brasil produz 1,6% dos artigos acadêmicos do mundo, mas tem apenas 0,8% das patentes registradas. Uma das explicações para esse desequilíbrio está no pequeno número de pesquisadores que atuam nas empresas por aqui. De cada dez pesquisadores, apenas dois estão nas companhias. Nos países desenvolvidos, a proporção é de 8 em cada 10. Para reduzir riscos e ganhar tempo, a Braskem decidiu fazer uma parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A petroquímica acabou de depositar um pedido de patente no processo de obtenção de nanocompostos para a fabricação de resinas plásticas. É a primeira empresa da América Latina a fazer isso. Depois de dois anos de pesquisa, a petroquímica promete colocar na prateleira até junho do ano que vem a primeira resina feita a partir da nanotecnologia a técnica de manejar materiais de dimensões de milionésimos de 1 milímetro. O produto poderá ser aplicado em diversas indústrias, entre elas a automotiva e a de embalagens. A nova tecnologia vai permitir a criação de produtos com menor quantidade de matéria-prima e melhores propriedades. Na indústria automotiva, isso significa carros mais leves e menor gasto de combustível. Na construção civil, materiais com propriedades antichamas e com maior resistência. "A nanotecnologia vai inaugurar uma nova fronteira na área de materiais. Por isso, entramos nessa corrida mundial", diz Susana Liberman, do Centro de Inovação e Tecnologia da Braskem. Os riscos de investir em pesquisa e desenvolvimento são altos: de cada sete produtos idealizados, quatro são desenvolvidos, 1,5 lançado e um tem sucesso comercial. Mas quem traz uma novidade ao mercado ganha um prêmio extra ao chegar primeiro. "A inovação gera lucros acima do normal. O índice de retorno é de seis vezes o investimento", afirma Ronald Dauscha, presidente da Anpei, associação das empresas inovadoras. De olho nesse retorno, a Vale começou a pesquisar o emprego de microrganismos na produção de metais. O desafio é modificar uma bactéria para que ela consiga tirar de maneira barata e eficiente o cobre da calcopirita, um tipo de minério pobre, mas um dos mais abundantes do planeta. "O primeiro que conseguir fazer isso em escala comercial vai aproveitar os bons preços do cobre e abrir distância dos concorrentes", diz Geísa Pereira, do Centro de Pesquisas da companhia. A empresa de biotecnologia Biomm já viu isso na prática. Com sede em Belo Horizonte, ela é uma das quatro companhias do mundo que conseguiram modificar geneticamente uma bactéria comum na flora intestinal humana para torná-la capaz de sintetizar a insulina. A pesquisa que demorou dez anos e consumiu investimentos de US$ 10 milhões foi considerada no ano passado pela Nature, uma das revistas mais reconhecidas na Ciência, o projeto mais importante em saúde humana do país. Hoje, com cerca de duas dezenas de patentes registradas nos últimos cinco anos, a Biomm presta serviços de biotecnologia para clientes, em sua imensa maioria, no exterior. Para lançar o perfume Malbec, o primeiro no mundo a usar o álcool feito do vinho em sua produção, O Boticário testou mais de 200 versões. "Recriamos a tecnologia de fabricação do perfume, mesmo em um país sem tradição em perfumaria", diz Miguel Krigsner, presidente da companhia. Pouco mais de um ano depois do lançamento do produto e do registro da patente, o perfume já bateu 1 milhão de unidades vendidas e se tornou o maior fenômeno de vendas da empresa. Apesar do risco, a inovação compensa.

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